jeudi 15 octobre 2009

Manicome


Apesar das presas tenho papel
Apesar de presa tenho pensamento
Apesar da tristeza, invento meu céu
Apesar da moleza, exploro em tento


Socorro, fui roubada
Levaram minhas forças, minh'alma
Doparam meu corpo, controlaram meu espaço
Demandaram o instrumento


Que não pude fornecer
Manipularam-me com cimento
Mal posso mexer


Miséria humana que se deve aceitar,
Então por que o "chicotear"
Moral e emocionalmente?

mardi 6 octobre 2009

Selo




Obrigada, *.*ALLEGR!A*.* pelo selo! É sempre bom compartilhar alegria, repasso para os blogs:



samedi 26 septembre 2009

Uma filosofia de vida

por: Tania Montandon


Um grande foco de luz à esquerda
Intuição
Curvos caminhos a escolher
Tentação
Garras visuais às faíscas a jazer
Inspiração

Desprendendo o efêmero físico
De quaisquer necessidades de estímulos
Com toda a imagem inextinguível
Daquele insigne Bem sentido...
-

mardi 1 septembre 2009

Destino traiçoeiro

Destino traiçoeiro

gal_kopia

Larissa era uma moça adorável, bem dotada, cuidadosamente educada, dum espírito delicado. Nascera numa pequena cidade do interior, de costumes conservadores e católicos enraizados. Sua vida era um romance inacabado. Viajava por todo o globo, dos lugares mais longínquos aos paraísos fictícios, debruçada nas inebriantes leituras de maiorais literatos. Não havia autor renomado que não tomasse conhecimento. Fez da leitura sua mais fiel companheira, ao experimentar através dela todas as emoções que se poderia nomear e também as inomináveis. Mas nem tudo era um mar de rosas. Muitos não compreendiam o que prendia por horas a fio uma moça jovem e bem-nutrida enfurnada em seu quarto. Ganhara o estigma de “melancólica burguesinha”, embora conseguisse conquistar com razoável facilidade a simpatia dos concidadãos. Todos tentavam, em vão, persuadi-la a se divertir com as outras garotas, a participar dos eventos esportivos, a curtir brincadeiras e momentos alegres.

Contudo a jovem não partilhava os interesses das colegas de escola, os quais considerava fúteis e superficiais. Também não se enturmava nos esportes, só participava quando era expressamente obrigada, sob pena de não poder continuar os estudos. Não possuía, de qualquer forma, habilidades atléticas. Usava óculos, estatura mediana, andar acanhado, movimentos por demais delicados e desastrados para pretender um mínimo rendimento em atividades físicas.

Era, sobretudo, uma visionária. Fantasiava seu mundo ideal, utopias românticas, seu brilhantismo extenuante. Não a atraía a realidade concreta. Gostava de caminhadas sem destino certo, observando o movimento da cidade como se estivesse muito distante dali. Por vezes parava e ficava escutando o canto dum passarinho, totalmente absorvida por ele, deixando sua mente leve divagando nos rodopios e voando para onde quer que fosse o passarinho... Em sua face, apenas permanecia uma excêntrica tranqüilidade e um semi-sorriso sutil. Seu interior era sempre um mistério.

Pressa, palpitações, balbúrdia de pensamentos invadiam sua calma mente todas as vezes que seu pai chegava com um presente fascinante, fosse um original de Virgínia Woolf, James Joyce ou Victor Hugo. Não lhe agradava as traduções. Aprendera a ler em francês, inglês e espanhol, embora nunca tivesse tido aulas de línguas. Sonhava tornar-se, um dia, escritora e, assim, talvez imortal em sua obra.

Porém, o destino não lhe fora tão gentil. Ainda na precoce idade de cinco anos, fora obrigada a presenciar a lenta consunção corporal que levou a alma de sua preciosa mãe. Desde então, o sorriso e o ânimo vital desaparecera do rosto de seu pai. No entanto, não se pode dizer que Larissa tenha tido uma criação infeliz. Sendo muito jovem e de coração um tanto versátil, não pareceu ser um terrível obstáculo transferir seu amor filial para a velha Naná, vetusta governanta da casa. Ali morava antes mesmo do nascimento de Larissa. O que seria dos Souza sem a velha e bondosa Naná?

Senhora dos cuidados caprichosos e essenciais do lar, não deixava nenhum desajuste cotidiano atrapalhar a harmonia do andamento doméstico da família. Naná não conhecera seus pais. Abandonada numa cesta de pão à porta da tradicional geração Souza precedente, foi ali que encontrou um aconchego e um trabalho decente, que gerou em sua alma o sentimento límpido de uma imensa gratidão, dando para se notar em sua inteira dedicação de corpo, suor e coração àquele lar e àquela família.

Larissa e Naná construíram ao longo dos anos um vínculo emocional e confidencial forte, conciliando afetos de natureza maternal aos de amizade fraternal. Essa relação foi imprescindível para o desenvolvimento físico e psicológico da jovem, já que não pôde contar com uma presença vivificadora e confortante da parte do pai. Este parecia deixar-se abismar cada vez mais em sua prisão pretérito-emocional. Nunca conseguiu se conformar à injusta perda de uma paixão tão honesta e recíproca à sua pura visão.

Seu Antônio tornou-se mais velho que o esperado para sua idade. Taciturno, ensimesmado, perdido na rotina cíclica e habitual inevitável para se manter vivo. Seguia seu ritual singular e discreto cheio de automatismos mundanos no dia a dia; comer, dormir, responder monossilabicamente a quaisquer perguntas, ir à missa todas as manhãs rezar para a alma de Isadora – que Deus a tenha e abençoe; assim como o sol nasce e desaparece a cada doze horas.

Ardente e voluptuosa sensação do êxtase exultado e incriado pela jovem mente de férteis ramos da cognição imaginária invade o sono daquela alma até então pura e infantilizada, seja por disciplina ou sua natureza insocializada.

- Larissa, abra esta porta agora e diga o que está acontecendo ou terei que chamar um de seus tios para quebrá-la. E tenha certeza de que nunca mais verá uma fechadura ao seu alcance enquanto morar nesta casa. São mais de nove horas e a diretora da escola já ligou três vezes. Vamos, não estou brincando, moça!

Abrir a porta, devo abrir a porta, não quero abrir a porta, vou abrir a porta, não posso abrir a p... AAhhhhhhhhhhhh!!! O buraco negro indescritível cobria-a da cabeça aos pés com estalidos parecidos aos daqueles fogos de festa junina, músculos remexiam-se com autonomia, pequeninos clarões finos e sempre adornados por cores fosforescentes vinham e iam, deixando aquela ardência intermitente entre as pálpebras e as camadas mais fundas e sensíveis dos olhos. A ubiqüidade do surdo som aterrorizante parecia ter energia infinita e onipotente, fazendo-se descartável e ridícula qualquer tentativa de controlá-lo.

Assim Larissa percebia a luta no interior de sua alma, semi-viva semi-morta, sentindo à exaustão quão vã seria uma iniciativa de representação mundana da nulidade contraposta ao poder daquele momento singular, desorientado e constrangedor em que foi jogada à sua revelia, subindo à mente parcelas de algum pensamento do tipo “este corpo é meu? Está vivo? O que é vida? Quem sou? Morri? O que é morte?”, porém sem nenhuma precisão ou clareza – tudo era cansaço imenso, como jamais vivido até em então.

Bam! O tio arrombou a porta e seus olhos, ao varrer o quarto, encontraram os olhos arregalados da menina que pareciam à iminência de pular para fora do rosto.


Tania Montandon

*publicado originalmente em: http://www.veropoema.net/

dimanche 19 juillet 2009

Uma ilusão intelectual



"lo más profundo, es la piel" Paul Valery



Procurando nos símbolos
A gênese primordial
Urde-se até algaravia
Explanando-se a mente cabal

Mas se viaja em círculos
Pois a corrente interpretativa
Se posta em capítulos
Revela-se repetitiva

Único núcleo consistente
Por nada faz atingir

E a mais longa profundidade
Então miúda ruga da superfície


jeudi 16 juillet 2009

Melancolia





Preciso agir, rápido. Não posso mais adiar. Cumpri minha missão: fiz com que a vida de todos ao meu redor não fosse fácil. Agora devo partir. Espero apenas os amigos ditarem-me como.

Não há de demorar. Eu sinto. Eu sei. Sei também que ninguém compreenderá. Mas assim foi sempre. Não fará diferença.

Desejo, de qualquer modo, que meus órgaos possiveis sejam doados e meu corpo sirva para pesquisa de medicamenntos, principalmente o cérebro, na esperança de contribuir com os próximos que experimentarem a inabilidade vital emocional a que fui acometida.

Que se possa saber mais!
Que se possa sofrer menos!
Irei em paz!

dimanche 28 juin 2009

A esquizoescritura


(des)retalhos

Em O livro por vir, percebe-se que "é possível que a humanidade um dia conheça tudo, os seres, as verdades e os mundos, mas haverá sempre uma obra de arte (talvez a arte na sua totalidade) que escapa a este conhecimento universal. Esse o privilégio da atividade artística: o que ela produz, frequentemente até um deus o deve ignorar".

Blanchot sobre Joubert e utopia : a meta seria desimpedir-se de todas as convenções que regram o pensamento para transformá-lo numa ação livre e libertadora, representada na escrita como prática e experimentação

Blanchot intenciona minar a literatura para livrá-la de suas idéias restritivas, visando uma escrita que sugere como sendo "fora do discurso, fora da linguagem" , o que chamei de Esquizoescritura, o título do post.


Questiona os conceitos Deus, do Eu, do Sujeito, da Verdade, do Uno, da própria idéia do Livro e da Obra, a tal ponto que essa escrita, antes mesmo de ter o Livro como meta, assinale seu próprio fim. Assim, nessa linha de pensamento, é possível que escrever exija o abandono de todos esses princípios, ou seja, o fim e também a conclusão de tudo o que garante a nossa cultura, não para voltar idilicamente atrás, mas, antes, para ir além, ou seja, até o limite, com o objetivo de tentar romper o círculo de todos os círculos: a totalidade dos conceitos que funda a história, nela se desenvolve e da qual ela é o desenvolvimento"

Diz Blanchot que
"escrever, então, passa a ser uma responsabilidade terrível. Invisivelmente, a escrita é convocada a desfazer o discurso no qual, por mais infelizes que nos acreditemos, mantemo-nos, nós que dele dispomos, confortavelmente instalados. Escrever, desse ponto de vista, é a maior violência que existe, pois transgride a Lei, toda lei e sua própria lei".

Uma prática surrealista, que provoca o desconhecido pelo acaso e pelo jogo, seja a referência mais imediata de Blanchot,

→ talvez algo de 'devir' como em Hegel

--> alcançar o objetivo da ampliação desses limites sem limites.

"Toda questão é determinada. Determinada, ela é esse próprio movimento pelo qual o indeterminado ainda se mantém na determinação da questão".
"A questão é movimento, a questão de tudo é totalidade de movimento e movimento de tudo".
Maurice Blanchot - A conversa infinita - Vol. 1 - A palavra plural.

Blanchot indica a necessidade de pensar a existência humana, libertando-a de jugos como o pensamento que se estrutura em idealizações unitárias, que necessariamente levam à discriminação do outro, do diferente. Com isso, reafirma a necessidade de convivermos com a diferença e a pluralidade para "talvez nada menos do que quebrar o jugo do deus e sair do círculo onde ele permanece fechado pelo fascínio da unidade", em busca de "uma palavra verdadeiramente plural".