mardi 6 octobre 2009

Selo




Obrigada, *.*ALLEGR!A*.* pelo selo! É sempre bom compartilhar alegria, repasso para os blogs:



samedi 26 septembre 2009

Uma filosofia de vida

por: Tania Montandon


Um grande foco de luz à esquerda
Intuição
Curvos caminhos a escolher
Tentação
Garras visuais às faíscas a jazer
Inspiração

Desprendendo o efêmero físico
De quaisquer necessidades de estímulos
Com toda a imagem inextinguível
Daquele insigne Bem sentido...
-

mardi 1 septembre 2009

Destino traiçoeiro

Destino traiçoeiro

gal_kopia

Larissa era uma moça adorável, bem dotada, cuidadosamente educada, dum espírito delicado. Nascera numa pequena cidade do interior, de costumes conservadores e católicos enraizados. Sua vida era um romance inacabado. Viajava por todo o globo, dos lugares mais longínquos aos paraísos fictícios, debruçada nas inebriantes leituras de maiorais literatos. Não havia autor renomado que não tomasse conhecimento. Fez da leitura sua mais fiel companheira, ao experimentar através dela todas as emoções que se poderia nomear e também as inomináveis. Mas nem tudo era um mar de rosas. Muitos não compreendiam o que prendia por horas a fio uma moça jovem e bem-nutrida enfurnada em seu quarto. Ganhara o estigma de “melancólica burguesinha”, embora conseguisse conquistar com razoável facilidade a simpatia dos concidadãos. Todos tentavam, em vão, persuadi-la a se divertir com as outras garotas, a participar dos eventos esportivos, a curtir brincadeiras e momentos alegres.

Contudo a jovem não partilhava os interesses das colegas de escola, os quais considerava fúteis e superficiais. Também não se enturmava nos esportes, só participava quando era expressamente obrigada, sob pena de não poder continuar os estudos. Não possuía, de qualquer forma, habilidades atléticas. Usava óculos, estatura mediana, andar acanhado, movimentos por demais delicados e desastrados para pretender um mínimo rendimento em atividades físicas.

Era, sobretudo, uma visionária. Fantasiava seu mundo ideal, utopias românticas, seu brilhantismo extenuante. Não a atraía a realidade concreta. Gostava de caminhadas sem destino certo, observando o movimento da cidade como se estivesse muito distante dali. Por vezes parava e ficava escutando o canto dum passarinho, totalmente absorvida por ele, deixando sua mente leve divagando nos rodopios e voando para onde quer que fosse o passarinho... Em sua face, apenas permanecia uma excêntrica tranqüilidade e um semi-sorriso sutil. Seu interior era sempre um mistério.

Pressa, palpitações, balbúrdia de pensamentos invadiam sua calma mente todas as vezes que seu pai chegava com um presente fascinante, fosse um original de Virgínia Woolf, James Joyce ou Victor Hugo. Não lhe agradava as traduções. Aprendera a ler em francês, inglês e espanhol, embora nunca tivesse tido aulas de línguas. Sonhava tornar-se, um dia, escritora e, assim, talvez imortal em sua obra.

Porém, o destino não lhe fora tão gentil. Ainda na precoce idade de cinco anos, fora obrigada a presenciar a lenta consunção corporal que levou a alma de sua preciosa mãe. Desde então, o sorriso e o ânimo vital desaparecera do rosto de seu pai. No entanto, não se pode dizer que Larissa tenha tido uma criação infeliz. Sendo muito jovem e de coração um tanto versátil, não pareceu ser um terrível obstáculo transferir seu amor filial para a velha Naná, vetusta governanta da casa. Ali morava antes mesmo do nascimento de Larissa. O que seria dos Souza sem a velha e bondosa Naná?

Senhora dos cuidados caprichosos e essenciais do lar, não deixava nenhum desajuste cotidiano atrapalhar a harmonia do andamento doméstico da família. Naná não conhecera seus pais. Abandonada numa cesta de pão à porta da tradicional geração Souza precedente, foi ali que encontrou um aconchego e um trabalho decente, que gerou em sua alma o sentimento límpido de uma imensa gratidão, dando para se notar em sua inteira dedicação de corpo, suor e coração àquele lar e àquela família.

Larissa e Naná construíram ao longo dos anos um vínculo emocional e confidencial forte, conciliando afetos de natureza maternal aos de amizade fraternal. Essa relação foi imprescindível para o desenvolvimento físico e psicológico da jovem, já que não pôde contar com uma presença vivificadora e confortante da parte do pai. Este parecia deixar-se abismar cada vez mais em sua prisão pretérito-emocional. Nunca conseguiu se conformar à injusta perda de uma paixão tão honesta e recíproca à sua pura visão.

Seu Antônio tornou-se mais velho que o esperado para sua idade. Taciturno, ensimesmado, perdido na rotina cíclica e habitual inevitável para se manter vivo. Seguia seu ritual singular e discreto cheio de automatismos mundanos no dia a dia; comer, dormir, responder monossilabicamente a quaisquer perguntas, ir à missa todas as manhãs rezar para a alma de Isadora – que Deus a tenha e abençoe; assim como o sol nasce e desaparece a cada doze horas.

Ardente e voluptuosa sensação do êxtase exultado e incriado pela jovem mente de férteis ramos da cognição imaginária invade o sono daquela alma até então pura e infantilizada, seja por disciplina ou sua natureza insocializada.

- Larissa, abra esta porta agora e diga o que está acontecendo ou terei que chamar um de seus tios para quebrá-la. E tenha certeza de que nunca mais verá uma fechadura ao seu alcance enquanto morar nesta casa. São mais de nove horas e a diretora da escola já ligou três vezes. Vamos, não estou brincando, moça!

Abrir a porta, devo abrir a porta, não quero abrir a porta, vou abrir a porta, não posso abrir a p... AAhhhhhhhhhhhh!!! O buraco negro indescritível cobria-a da cabeça aos pés com estalidos parecidos aos daqueles fogos de festa junina, músculos remexiam-se com autonomia, pequeninos clarões finos e sempre adornados por cores fosforescentes vinham e iam, deixando aquela ardência intermitente entre as pálpebras e as camadas mais fundas e sensíveis dos olhos. A ubiqüidade do surdo som aterrorizante parecia ter energia infinita e onipotente, fazendo-se descartável e ridícula qualquer tentativa de controlá-lo.

Assim Larissa percebia a luta no interior de sua alma, semi-viva semi-morta, sentindo à exaustão quão vã seria uma iniciativa de representação mundana da nulidade contraposta ao poder daquele momento singular, desorientado e constrangedor em que foi jogada à sua revelia, subindo à mente parcelas de algum pensamento do tipo “este corpo é meu? Está vivo? O que é vida? Quem sou? Morri? O que é morte?”, porém sem nenhuma precisão ou clareza – tudo era cansaço imenso, como jamais vivido até em então.

Bam! O tio arrombou a porta e seus olhos, ao varrer o quarto, encontraram os olhos arregalados da menina que pareciam à iminência de pular para fora do rosto.


Tania Montandon

*publicado originalmente em: http://www.veropoema.net/

dimanche 19 juillet 2009

Uma ilusão intelectual



"lo más profundo, es la piel" Paul Valery



Procurando nos símbolos
A gênese primordial
Urde-se até algaravia
Explanando-se a mente cabal

Mas se viaja em círculos
Pois a corrente interpretativa
Se posta em capítulos
Revela-se repetitiva

Único núcleo consistente
Por nada faz atingir

E a mais longa profundidade
Então miúda ruga da superfície


jeudi 16 juillet 2009

Melancolia





Preciso agir, rápido. Não posso mais adiar. Cumpri minha missão: fiz com que a vida de todos ao meu redor não fosse fácil. Agora devo partir. Espero apenas os amigos ditarem-me como.

Não há de demorar. Eu sinto. Eu sei. Sei também que ninguém compreenderá. Mas assim foi sempre. Não fará diferença.

Desejo, de qualquer modo, que meus órgaos possiveis sejam doados e meu corpo sirva para pesquisa de medicamenntos, principalmente o cérebro, na esperança de contribuir com os próximos que experimentarem a inabilidade vital emocional a que fui acometida.

Que se possa saber mais!
Que se possa sofrer menos!
Irei em paz!

dimanche 28 juin 2009

A esquizoescritura


(des)retalhos

Em O livro por vir, percebe-se que "é possível que a humanidade um dia conheça tudo, os seres, as verdades e os mundos, mas haverá sempre uma obra de arte (talvez a arte na sua totalidade) que escapa a este conhecimento universal. Esse o privilégio da atividade artística: o que ela produz, frequentemente até um deus o deve ignorar".

Blanchot sobre Joubert e utopia : a meta seria desimpedir-se de todas as convenções que regram o pensamento para transformá-lo numa ação livre e libertadora, representada na escrita como prática e experimentação

Blanchot intenciona minar a literatura para livrá-la de suas idéias restritivas, visando uma escrita que sugere como sendo "fora do discurso, fora da linguagem" , o que chamei de Esquizoescritura, o título do post.


Questiona os conceitos Deus, do Eu, do Sujeito, da Verdade, do Uno, da própria idéia do Livro e da Obra, a tal ponto que essa escrita, antes mesmo de ter o Livro como meta, assinale seu próprio fim. Assim, nessa linha de pensamento, é possível que escrever exija o abandono de todos esses princípios, ou seja, o fim e também a conclusão de tudo o que garante a nossa cultura, não para voltar idilicamente atrás, mas, antes, para ir além, ou seja, até o limite, com o objetivo de tentar romper o círculo de todos os círculos: a totalidade dos conceitos que funda a história, nela se desenvolve e da qual ela é o desenvolvimento"

Diz Blanchot que
"escrever, então, passa a ser uma responsabilidade terrível. Invisivelmente, a escrita é convocada a desfazer o discurso no qual, por mais infelizes que nos acreditemos, mantemo-nos, nós que dele dispomos, confortavelmente instalados. Escrever, desse ponto de vista, é a maior violência que existe, pois transgride a Lei, toda lei e sua própria lei".

Uma prática surrealista, que provoca o desconhecido pelo acaso e pelo jogo, seja a referência mais imediata de Blanchot,

→ talvez algo de 'devir' como em Hegel

--> alcançar o objetivo da ampliação desses limites sem limites.

"Toda questão é determinada. Determinada, ela é esse próprio movimento pelo qual o indeterminado ainda se mantém na determinação da questão".
"A questão é movimento, a questão de tudo é totalidade de movimento e movimento de tudo".
Maurice Blanchot - A conversa infinita - Vol. 1 - A palavra plural.

Blanchot indica a necessidade de pensar a existência humana, libertando-a de jugos como o pensamento que se estrutura em idealizações unitárias, que necessariamente levam à discriminação do outro, do diferente. Com isso, reafirma a necessidade de convivermos com a diferença e a pluralidade para "talvez nada menos do que quebrar o jugo do deus e sair do círculo onde ele permanece fechado pelo fascínio da unidade", em busca de "uma palavra verdadeiramente plural".



mardi 9 juin 2009

O PRESENTE QUE VIVE EM MIM



"Às vezes começa-se a brincar de pensar e eis que inesperadamente o brinquedo é que começa a brincar conosco. Não é bom. É apenas frutífero."
(Clarice Lispector in Aprendendo a Viver)

Não invista em minhas fraquezas, elas podem adquirir poder e se desenvolverem , crescendo como uma bola de neve e esmagando o que há de potência criativa, ainda que excêntrica e de funcionamento peculiar, talvez codificado transcendendo a linguagem socialmente aceita e usualmente utilizada.

Nietzsche escreve a um amigo sobre suas impressões do livro Memórias do subsolo (Dostoiévski, 2000): “A voz do sangue (como denominá-lo de outro modo?) fez-se ouvir de imediato e minha alegria não teve limites”.

O frio da angústia dilacera o peito num outono mortífero de tremores inexoráveis, indigentes resquícios de vida nos intermédios de um acaso irrevogável da existência que se faz imposta e autocraticamente veemente, torturando arfantes suplícios de liberdade e energias condensadas, sincretizadas em fractrais mentais.

"Sou uma pessoa que tem um coração que por vezes percebe, sou uma pessoa que pretendeu pôr em palavras um mundo ininteligível e um mundo impalpável. Sobretudo uma pessoa cujo coração bate de alegria levíssima quando consegue em uma frase dizer alguma coisa sobre a vida humana ou animal."
(ibid.)

A noite nefasta invade novamente meu recanto, 'urubserva-me' por entre as grades indesejadas do destino através da janela. Nunca dá paz e sossego. Vá-te embora, negra maligna! Deixa-me! Não preciso trevas externas quando o interior já se mostra por demais obscuro e sibilino. Ânsia por luz, calor, brilho interior e cristalino. O restante é totalmente dispensável. Sem embargo, hei de sucumbir... Soníferos, pra que vos quero?!

"Se o meu mundo não fosse humano, também haveria lugar para mim: eu seria uma mancha difusa de instintos, doçuras e ferocidades, uma trêmula irradiação de paz e luta...(...)Antes o sofrimento legítimo que o prazer forçado."
(ibid.)

Pois eis meu mundo, o semi-humano. Sinto-me separada de tudo e todos por uma camada de cinco km de espessura de puro vácuo.

"Como se sabe, somente a morte é grátis. (...)nesses tempos de provação, restam duas perspectivas, vê-los todos juntos e morrer em liberdade."
(Freud. In "Psicanálise, Literatura e Estéticas de Subjetivação", org .Giovanna Partucci)

A sensibilidade inteligente talvez seja um dom, que pode ser atrofiado se desmotivado ou aperfeiçoado se praticado com dedicação, podendo chegar a constituir um coração inteligente, minha grande meta na vida. Sinto tanta angústia, sofrimento, exaustão, lágrimas ardentes de sangue escapam da alma a seu arrepio. Tremo a vigília e o agir a cada segundo. Dói, que é isto a acontecer? Pressão forte, contundente em sensação quase sólida e implacável sem defesas.

"Que o pensamento seja lançado como uma pedra por uma máquina de guerra "
(Deleuze)

Essa carne e osso e coisinhas mais me causa tanta estranheza. Eu poderia jurar que esse corpo não é meu. Mas de quem seria? Alguns transmitem paz e suavidade, outros estresse e correria, outros ainda alegria e energia; também há aqueles que, como eu, possuem a sensação de nada transmitir...

"Somos de carne, mas temos de viver como se fôssemos de ferro."
(Freud)

Uma vida é uma prisão, uma temporada para existir em apenas um corpo, com apenas um tipo de sangue, um só aniversário para cada ano, uma só família, apenas um cabelo, uma voz e não mais que uma impressão digital e uma ânsia de ser o que seria mas não é, de amar o que amaria mas não existe, de viver o que viveria e nunca acontece, uma ânsia infinita, de todo possível irrealizável, cuja extinção mataria tal vida. Vida é movimento. Sem insatisfação não se vive. Às vezes fico a observar uma criancinha pequena cuja naturalidade e desenvoltura dão a impressão de que conhece o mundo há milhões de anos. Onde foi que adquiriu tal familiaridade com esse espanto de mundo em que vivemos? Por onde esteve que decidiu aparecer há apenas cerca de dois anos? Por que esconde tanto o que sabe?

"Você me pede um conselho e atrevidamente eu dou o Grande Conselho:
- Seja você mesmo! Porque ou somos nós mesmos ou não somos coisa nenhuma. E para ser si mesmo é preciso um trabalho de mouro e uma vigilância incessante na defesa. Pois tudo conspira para que sejamos meros números, carneiros de vários rebanhos - os rebanhos políticos, religiosos, estéticos, - Há no mundo ódio à exceção e ser si mesmo é ser exceção."
(Monteiro Lobato)

Vida justa ou injusta? O que é justiça? Os tempos atuais mostram claramente o quanto é vão e nada inteligente pensar dessa maneira. Se não se funciona como gostariam é como se não se tivesse mais pernas, braços, cérebro, desejos... Como se não existisse e aí toca na ferida humana que jamais deve deixar de ser lembrada e (re)fletida a todo tempo, na eterna luta da minoria ousada contra a intolerância, a exploração, a alienação, o comodismo, o caos da ambígua civilização.



"Eu sou assim, quem quiser gostar de mim eu sou assim.
Eu sou assim, quem quiser gostar de mim eu sou assim.
Meu mundo é hoje não existe amanhã pra mim
Eu sou assim, assim morrerei um dia.
Não levarei arrependimentos nem o peso da hipocrisia.
Tenho pena daqueles que se agaixam até o chão
Enganando a si mesmo por dinheiro ou posição
Nunca tomei parte desse enorme batalhão,
Pois sei que além de flores, nada mais vai no caixão.
Eu sou assim, quem quiser gostar de mim eu sou assim."

( Meu Mundo É Hoje - Paulinho da Viola)